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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Protocolo - Robert Wilson


Encenações em Jogo: Experimentos de Criação e Aprendizagem do Teatro Contemporâneo
Prof. Marcos Bulhões Martins


Por Mariela Lamberti de Abreu


Cheguei a me perguntar “De que ponto devo começar? Teoria? Procedimento? Poética?” Mas após o módulo Robert Wilson, na disciplina “Encenações em Jogo: Experimentos de Criação e Aprendizagem do Teatro Contemporâneo”, ministrada pelo Prof. Marcos Bulhões já considero que o mais importante é começar. Independente do ponto.

Inicialmente, para compreender o teatro de Bob Wilson, foram feitas leituras de textos teóricos sobre o teatro performativo e o teatro pós-dramático, em que a ação é o aspecto mais valorizado, passando um sentido à representação através da imagem e da construção visual. Com isto, forma-se um jogo de signos que força o olhar do espectador a adaptar-se à representação cênica e desconstruir a realidade, os signos e a linguagem.

Segundo Lehmann em Teatro Pós-Dramático, Bob Wilson ampliou radicalmente o espaço para concepções diversificadas sobre o que o teatro pode ser, é um teatro de metamorfoses, que atrai o espectador para um mundo lúdico. É priorizado o fenômeno, o efeito da imagem sobre o espectador. Para Galizia, em “Os Processos Criativos de Robert Wilson”, as ações são símbolos. O estilo onírico do teatro de Bob Wilson desvia o foco da interpretação. 

Somando isto ao uso de movimentos em câmera lenta, cenas simultâneas, justaposição e repetição, pode-se notar com clareza os elementos que caracterizam o estilo de teatro deste encenador. Estes elementos típicos de Bob Wilson podem ser observados em sua obra "As fábulas de La Fontaine" encenada na Comedie Française.

Para compreender melhor estes elementos presentes nas obras de Bob Wilson, contamos com a exibição de vídeos e documentários, o que contribuiu significativamente para assimilarmos teoria e prática. 

Roteiro cênico a partir do modelo estético de Bob Wilson

A partir do embasamento teórico e do auxílio de vídeos e documentários a respeito das obras do encenador, foram elaborados roteiros cênicos a partir do modelo estético de Bob Wilson, que deveria conter de três a cinco quadros, com desenhos e descrição das cenas, considerando a iluminação, sonoplastia e os elementos característicos. 

Na etapa seguinte, experienciamos uma prática a partir dos roteiros propostos. Cada grupo deveria compor as cenas, mesclando com os roteiros trazidos pelos outros integrantes do grupo para que finalmente fossem expostos com iluminação, sonoplastia, figurinos e ações. 

A meu ver, a apresentação dos exercícios práticos elaborados pelos grupos, permitiu a cada pessoa um encontro com os pontos estimulados por Bulhões no decorrer do módulo Bob Wilson. Pudemos entrar em contato com o procedimento pedagógico de criação, a poética e os elementos característicos da obra do encenador norte-americano – cena abstrata, simultaneidade, justaposição, repetição, coralidade, ação cenográfica e dilatação do tempo e do movimento. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012


 Prof. Marcos Bulhões Martins - ECA/USP – 2012
Aluna: Jacqueline Silva Mendes


PROTOCOLO


APRENDER
Esse é o principal objetivo pra mim desta disciplina.

AMPLIAR
Meu conhecimento sobre a cena contemporânea

EXPERIMENTAR
União da discussão da teoria com a prática

MEDIAR
Perceber os pontos de um trabalho do teatro contemporâneo na disciplina Arte no ambiente escolar

COM TANTAS PERNAS E BOCAS[1], EU ME FIZ MAIS OLHOS E OUVIDO...

E a partir desses verbos lentamente fui construindo um caminho...
Entre aulas e textos, entre mudanças e adaptações, entre São Luis e São Paulo, entre amigos e desconhecidos, entre Bulhões e Bob Wilson, fui trançando meu conhecimento numa relação muito próspera, acredito.

Mas enfim... VEJO Bob Wilson e ESTRANHO; então REVEJO e REVEJO e que interessante!

LEIO Bob Wilson, (...) - DiFeReNtE


DISCUTIMOS Bob Wilson...




Outras perguntas vão surgindo:

  • ·        Mas o que é o teatro performativo?[2]

CONSTRUIMOS um texto   

  • Mas o que é o teatro pós-dramático?[3]




CONSTRUIMOS um texto




CRIAMOS a partir de Bob Wilson, que frustração, não sei como criar!!!

Ouvimos, assistimos, estudamos, escrevemos, discutimos, e novamente o DESAFIO:

CRIAR a partir de BOB WILSON

No último instante

CRIAMOS, que beleza criar!


Nasce o ROTEIRO... Descubro a poesia




Gostei do projeto, diferente do que já tinha experimentado, expandi minha criação para além de Wilson, criei também “a lá Jacqueline”!

DEPOIS de um percurso mais individual, trilhamos um percurso coletivo, formamos grupos, juntamos nossos roteiros e estes se transformaram em um único roteiro...

ENCENAMOS...


Nos vimos...

Nos vimos no palco...

Nos vimos na tela...

VER os experimentos com luz, figurino, música e cenário e perceber os princípios, que tanto estudamos, e nossas próprias contribuições a partir desses estudos...
Fez emergir uma sensação de aprendizado... de AGORA EU POSSO.






[1] Somos mais ou menos 28 pessoas na disciplina.
[2] FÉRAL, Josette. Por uma poética da performatividade: o teatro performativo. (artigo)

[3] GUINSBURG, J. e FERNANDES, Sílvia. O Pós-Dramático: Um conceito Operativo. (org.) São Paulo: Perspectiva, 2008.

Protocolo Bob Wilson, segundo Fabiano Fleury


            Na primeira parte do curso procuramos identificar o método de Bob Wilson –  procedimentos capazes de identificá-lo de imediato. Aos poucos, aula a aula, fomos conhecendo o seu processo criativo, tendo contato com vídeos e leituras sobre o teatro performativo e pós-dramático e, como contra ponto à teoria, exercitando na prática a construção de exercícios a partir dos “modelos” deste diretor/encenador/dramaturgo norte-americano discutidos em sala de aula (nas cadeiras e no palco do teatro-laboratório da ECA).
            Algumas marcas do aprendizado teórico ficaram gravadas nos grupos que encenaram seus exercícios: a relação com o tempo e o espaço (brincado de estendê-los e comprimi-los), os jogos corporais (repetindo, acentuando, recriando, descaracterizando movimentos, criando novas relações entre gesto corporal e fala), a cena justaposta (na tentativa de criar novos signos a partir da multiplicidade de ações), o enquadramento da cena (ou “a paisagem cênica”) em oposição ao encadeamento cênico, o espectador como criador de significados subjetivos do que está posto em cena, o nivelamento do texto aos outros elementos como música, vídeo, dança.  

PROTOCOLO BOB WILSON
Por Biagio Pecorelli
O homem de vestido sou eu. Levantei a xícara lento, muito lento - boca calada não entra mosquito. Olhar fixo num ponto escuro do público. A respiração procura conter a vontade de chegar logo. Não é preciso chegar logo. Não é preciso logos. É preciso ser preciso. Precisamente nada. (Do meu caderno de anotações da aula).

Durante os meses de março e abril de 2012, estivemos, sob a coordenação de Marcos Bulhões, mergulhados na obra do encenador norte-americano Robert Wilson, na disciplina do Programa de Pós-graduação em Artes Cênica ECA/USP “Encenações em jogo: experimentos de criação e aprendizagem do teatro contemporâneo”. O objetivo não era cultuar a vasta obra deste que é, certamente, um dos nomes mais relevantes do teatro mundial do século 20 e da atualidade, mas compreender/capturar procedimentos utilizados por Wilson em suas encenações para ressignificá-los, ao nosso modo, como recurso pedagógico, visando ao exercício de jogos performativos. Para tanto, utilizamos não apenas imagens do teatro de Bob Wilson – especificamente, os registros áudio-visuais de sua encenação Fábulas de La Fontaine (2004) e o documentário biográfico Absolute Wilson -, como entrevistas com o encenador e o livro Os processos criativos de Robert Wilson: trabalhos de arte total para o teatro americano contemporâneo, de Luiz Roberto Galizia, que nos anos 80 produziu esse importante dossiê de sua experiência como pesquisador ao lado de Bob.

Dentre os procedimentos que encontramos na obra de Wilson estão: a musicalização da cena; a neutralização das emoções; o estranhamento (não-brechtiano) dos gestos; uma “dramaturgia da luz”; o uso de máscaras; um forte apelo onírico, em oposição ao teatro realista dominante (oposição esta que, aliás, teria arrancado elogios, nos anos 70, de Louis Aragon, um dos nomes mais importantes do Surrealismo); uma dilatação do tempo; uma “arquitetura musical” composta mormente em parceria com o músico Philip Glass; o uso de cenas simultâneas e justapostas, possibilitando uma escolha de foco pelo público; um detalhamento precioso dos gestos dos atores. Destaco ainda um esvaziamento geral dos sentidos, que para Wilson exerce importância central ao deslocar para o público praticamente toda a tarefa de significar, de criar possibilidades de leitura daquilo com que se depara no palco. Todos esses elementos compõem, para Galizia, a Gesamtkunstwerk de Bob Wilson, o que equivale a dizer que a visão de “obra total” do encenador (como, aliás, é marcante no teatro contemporâneo, “performativo”/“pós-dramático”, do qual Wilson é apenas um dos nomes mais destacados) encontra-se muito longe daquilo que foi idealizado por Richard Wagner em fins do século 19, ao privilegiar o fragmento, a dissonância em detrimento de uma visão totalizante e harmônica de ópera.

Em paralelo às discussões geradas pelo contato com a obra de Wilson (que coincidiu com a vinda do encenador ao Brasil e à cidade de São Paulo para apresentar a sua versão para A última gravação de Krapp, texto de Samuel Beckett), trabalhamos semanalmente na construção de roteiros individuais criados à luz dos procedimentos de Wilson. A ideia, mais uma vez, não era reproduzir o teatro wilsoniano, mas realizar uma “antropofagia” dos seus métodos e/ou imagens para, a partir destes, gerar processos de ensino/aprendizagem que pudessem ser úteis em nossas práticas pedagógicas. Nesse sentido, criamos três roteiros ao longo destes meses, dos quais chegamos a um único roteiro, em grupo, que levamos ao palco na tarde do dia 26 de abril.

O grupo que integrei (02) compôs um roteiro híbrido, que privilegiava o uso de cores na cena, a justaposição e, especialmente, a dilatação temporal, com gestos lentos, resistindo às resoluções. A trilha utilizada consistia numa massa sonora do compositor húngaro György Ligeti, Volumina (1), que pudesse também criar mais sinestesia que entendimento. Aliás, todos os grupos usaram, cada qual ao seu modo, elementos característicos do teatro de Bob Wilson para uma criação particular, que deixou o renomado encenador apenas como figura de fundo para uma rica experiência pedagógica de dramaturgia e encenação contemporâneas.

terça-feira, 8 de maio de 2012

… até onde a curiosidade puder nos levar

 

por Eduardo de Paula

Protocolo da disciplina: “Encenações em Jogo: Experimentos de Criação e Aprendizagem do Teatro Contemporâneo” – Prof. Marcos Bulhões Martins PPGAC – ECA/USP – 2012

Módulo: “Robert Wilson”

… o interesse e a curiosidade referem-se à questões que giram em torno das ideias de “Jogo” em relação aos “MODELOS estéticos” abordados e os decorrentes processos de ensino & aprendizagem referentes à criação da cena contemporânea.

O primeiro modelo estético abordado apoia-se nas proposições de Robert Wilson. Neste sentido, percebo que os termos “modelo” e “proposições” são fronteiriços à “princípios organizacionais”.

“Ficou claro para mim que, no mundo de Wilson, caos e ordem não são antípodas, e que na realidade funcionam como complementares, como um quadro e sua moldura. Sem nenhuma intenção de estragar o misterioso, o ‘maravilhoso’ em seu teatro, decidi-e então investigar os princípios organizacionais que caracterizam o processo criativo de Wilson.” (Galizia, 2004, XVIII)

Atento à ideia de “princípios organizacionais”, segue abaixo uma pequena lista observada no livro “Os processos criativos de Robert Wilson”, de Luiz Roberto Galiza; no documentário “Absolut Wilson”; nos espetáculos “Fábulas de La Fontaine”, “Sonetos”, “Einstein on the beach” (ambos assistidos em DVD), e na peça teatral “A última gravação de Krap” (SESC-SP, 2012).

 

  • - (...) a possibilidade do uso do acaso e da improvisação como meios de se atingir resultados artísticos (Galizia, 2004, p.XXIII);
  • - (...) proporcionar situações que deem a cada pessoa a oportunidade de fazer descobertas sobre si mesma e de desenvolver a confiança em suas próprias habilidades(Galizia, 2004, p.XXVI);
  • - (...) a ideia do teatro como a combinação de todas as artes (Galizia, 2004, p.XXXIII);

- Relativo à ação dos performers:

o Corpo Geometrizado

o Movimentos: hiper-rápidos e/ou em câmera lenta

o Movimentos: amplos e/ou restritos

o Estatismo: congelamento e/ou suspensão do movimento

o Distorção vocal: disjunção entre fala e voz

- Relativo ao espaço cênico (visual, sonoro e sensorial):

o Espaço extremamente limpo

o Contraluz

o Luz que recorta os espaços – ora destacando, ora isolando

o Atmosfera de sonho e/ou pesadelo

o Sonoridade que cria atmosfera

o Sensação de hipnose

o Cena abstrata

o Cena onírica

o Cena paisagem

*

* Colocando algumas ideias em jogo:

- Atividades: Criação de Roteiros -

Roteiro 1: Livre: "Contemplação ou Despedida enquanto se vê Marte ou Vênus"

. roteiro composto por quatro quadro de cenas, cada um com 7min. de duração,

. um performer,

. sons de um suave vento, alternando silencio e possível som de agua correndo por um riacho,

. palco com apenas um praticável colocado no fundo, à esquerda,

. ciclorama em variações de azul,

. projeções: pássaros, chuva e metade de uma canoa - esta deve aparecer três vezes: primeiro aos 7min, depois aos 14min e por ultimo aos 21min,

. AÇÃO: 1. performer agachado, de costas para o publico, ouvindo o silencio: ciclorama em azul muito claro, com circulo alaranjado projetado no alto à direita: deve durar 7min.; 2. performer em pé, de costas para o publico, olhando para o ciclorama enquanto a imagem de uma canoa com uma pessoa aparece pela metade no ciclorama, a luz é de uma azul estrondoso, o circulo é projetado no alto à esquerda, sobre o performer que não se dá conta de sua aparição, som de vento suave; 3. após o total desaparecimento da canoa, o circulo alaranjado também desaparece, simultaneamente à isso, o performer lentamente vai se levantando e assumindo a imagem geometrizada no corpo como alguém que acena, e deve permanecer nesta posição por alguns minutos, fazendo pequenos espasmos nas pontas dos dedos da mão que acena, som de vento misturado com água - ambos suaves; 4. performer agachado no praticável, como se acariciasse as gotas de chuva que começam a cair suavemente, aos poucos os dois círculos alaranjados - que fazem alusão à Marte ou Vênus – vão surgindo no alto, um a direita e o outro à esquerda, o ciclorama deve estar em variações de azul, silêncio.

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* 

A partir da orientação de estudos apoiada na ideia de “jogo”, tomei o livro do Galizia e deparei com a série “Vídeo 50”. Segue alguns encontrados no Youtube:

1. “Mulher sendo assaltada”

- ver descrição da cena no livro “Processos Criativos de Robert Wilson”, de L. R. Galizia - nº6, p.5.

  2. “Pássaro em Cartão Postal”

- ver descrição da cena no livro “Processos Criativos de Robert Wilson”, de L. R. Galizia -nº22, p.7, L. R. Galizia.

3. “Mulher Hipnotizada pela Torradeira”

- ver descrição da cena no livro “Processos Criativos de Robert Wilson”, de L. R. Galizia -nº34, p.8, L. R. Galizia.

 

Roteiro 2: inspirado nas proposições de Robert Wilson, mais especificamente na série “Vídeo 50”: "Presente"

. um performer impecavelmente vestido com roupa social,

. uma caixa de presente embrulhada de papel vermelho brilhante, amarrado com laço de fita azul,

. cadeira de madeira de linhas retas e simples,

. batente e porta pendurados à meio metro do chão,

. áudio: som de campainha; fala em off “E agora?!”

. iluminação: contraluz em variações de azul; foco circular laranja-avermelhado.

. duração: total 49min.: 7 quadros de cena; cada um com a duração de 7 min.

AÇÃO: não se sabe se o homem recebeu o presente ou se vai presentar alguém, nem se ele está do lado de dentro ou de fora da porta; o presente deve ser a metáfora do tempo “agora”. 1. (0 aos 7min) imagem desfocada, ganha definição aos poucos, sons de campainha que se repete 7 vezes; 2.(8 aos 14min) imagem nítida revela o homem sentado na cadeira, segurando um presente; 3. (15 aos 21 min) som de toque de campainha, após, voz em off “E agora?!”; 4. (22 aos 28 min) mesma imagem estática do homem sentado segurando o presente; 5. (29 aos 35 min) inicia com toque de campainha, nada acontece, o homem continua do mesmo modo, no final, outro toque de campainha após, voz em off “E agora?!”; 6. (36 aos 42 min) mesma imagem estática do homem sentado segurando o presente; 7. (43 aos 49 min) inicia com toque de campainha, o homem continua do mesmo modo, após, voz em off “E agora?!”, imagem vai aos poucos ficando desfocada, o homem segue na mesma posição, estático, segurando o presente, projeção dos créditos.

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- Em uma determinada aula, divididos em grupos, cada aluno apresentou seu roteiro para os demais. Foi escolhido um “diretor” em cada grupo, que deveria exercer tal função “à lá” Bob Wilson (= “autocrata”!). O que fizemos foi um tipo de “colagem” de momentos dos roteiros, combinados com os “princípios organizacionais” estudados a partir das leituras, observações das peças (em DVD e “Krapp” no SESC-SP) e da experimentação prática em sala de aula – que utilizou princípios de trabalho observados no “modelo estético bobwilsoniano”: 1.dança pessoal, 2.câmera lenta, 3.rápido, 4.geometria corporal, 5.forma coral, 6.foco do movimento, etc. – (vide detalhamento acima).

*

Ter a curiosidade como guia é a atitude que me move nesta jornada. Nesta primeira fase, deparar-se com a ideia de “modelo estético” e colocar-se em ação criativa, percebendo sua evidente eficácia esta sendo algo surpreendente, pois confesso que os resultados cênicos realizados pelos grupos foram incríveis!

Por hora “os perceberes” são movediços demais para firmar uma relação com a minha pesquisa. Ainda faltam outros olhares, encaminhamentos, percepções.

Então, não é o que fica, mas “o que continua”: o JOGO!

Que possamos ir até o devido lugar que este jogo puder nos levar!

*

Bibliografia:

ARAÚJO, Antônio. A encenação performativa. in Revista Sala Preta, São Paulo, v.1, nº8, 2008.

FÉRAL, Josette. Por uma poética da performatividade: o teatro performativo. Trad. Lígia Borges.  Revista Sala Preta,  São Paulo, v.1, n.8, pp. 197-210, 2008.

GALIZIA, Luiz Roberto. Os processos criativos de Robert Wilson. SP: Perspectiva, 2004.

LEHMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático. São Paulo: Cosacnaify, 2007

ROTEIRO, UMA CONSTRUÇÃO VISUAL NO ESPAÇO VAZIO, POR GISELE VASCONCELOS.

 “Eu sinto que a minha responsabilidade como artista não é dizer o que algo significa, mas perguntar o que é”. (WILSON apud GALIZIA, 1986, p. 537)

No processo de criação e aprendizagem teatral proposto por Marcos Bulhões na disciplina de pós-graduação da Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo, o ator-educador-pesquisador, na situação de aprendiz, trabalha com princípios fundamentais da obra de encenadores e coreógrafos, de destaque nas artes cênicas da atualidade.
Acupuntura Poética mapeia pontos-pessoas-princípios em uma rede artística, na qual o estímulo desses pontos-princípios proporciona uma aprendizagem teatral com abertura para possibilidades de criação cênica, com ampliação de repertório e das funções criativas do aprendiz.

Nas atividades propostas para a turma de 2012, o primeiro ponto da rede, mapeada por Bulhões, foi o encenador norte-americano Robert Wilson. Diante da escolha, para a compreensão dos princípios observáveis em suas encenações, partimos para apreciação de suas obras, através da exibição de filmes, vídeos e documentário, leituras de textos sobre o encenador e exercícios práticos. Desta forma, entramos em contato com o encenador sob o viés da apreciação, contextualização e produção.
Essa abordagem, cujo procedimento de aprendizagem tem inspiração na estética do modelo, num exercício de teoria e prática, é também chamada, por Bulhões, de antropofágica, no instante em que pressupõe o ato de “comer” uma parte, ou várias partes da obra do encenador.

“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question. Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.” (ANDRADE, 1928)
O ato de “comer” é um mergulho pessoal, cuja imersão pode ocorrer nas profundezas ou nas superfícies das partes daquele que se faz “comestível”. Dependendo da experiência dos “mergulhadores” retira-se, no retorno do ato, aquilo que passa a ser incorporado aos roteiros de experimentações, enquanto exercício proposto nas aulas de “Encenações em Jogo”.

Após apresentação expositiva do processo-aprendizagem da disciplina e da proposta da Acupuntura Poética, partimos para o estudo de pontos-princípios do encenador Robert Wilson, através: da apreciação do documentário “Absolute Wilson”, dirigido por Katharina Otto-Bernstein e da obra “Fábulas de La Fontaine”, com elenco da Comedie Française; da leitura do livro “Processos Criativos de Robert Wilson”, de Luiz Roberto Galizia; de experimentações com jogos a partir de imagens corporais, dança livre, exercício de coralidade e criação de roteiros.
Neste escrito, falo acerca do viés da produção na qual os participantes experimentam a criação de roteiro cênico composto por três a cinco quadros, tendo como referência pontos-princípios da obra do encenador. Para Bob Wilson “a concepção de roteiro nasce da construção visual como um todo e não de uma parte que deve ser ampliada e desenvolvida”. (GALIZIA, 1986, p. 131)
Como questão motivadora para a realização do esboço dos roteiros enquanto exercício de teoria e prática eu tomo para o trabalho a questão sugerida por Bulhões: “quais os procedimentos de escritura cênica são utilizados nas suas encenações?”
A construção visual tornou-se então um desses procedimentos que motivou o esboço do primeiro roteiro à la Bob Wilson. A questão motivadora torna-se, assim, a mobilizadora das ações investigativas em torno da estética do modelo, proposto na Acupuntura Poética, cujo objetivo engloba a fisicalização do conceito. Fisicalização, que segundo Spolin (1998, p. 340), “é a manifestação física de uma comunicação; a expressão física de uma atitude.”
Na investigação dos procedimentos da escritura cênica utilizados nas encenações de Bob Wilson, ganharam destaque, no ato antropofágico: imagens como geradoras de cenas e quadros para os roteiros; a teatralidade do vazio; uso da repetição; da justaposição, aqui considerado como outro conceito de unidade, que se difere de sucessão e transição; arquitetura visual; cenas simultâneas, nas quais são sugeridos vários pontos focais para a plateia; uso de recursos de distanciamento; predominância do tempo dilatado, cuja extensão e alargamento “estica o tempo de contato do espectador com a informação” (GALIZIA, 1986, p. 17); artificialidade do gesto e musicalidade da fala; ação cenográfica; coralidade; suspensão do movimento e estatismo; disjunção; resposta aos estímulos sonoros e visuais.
Na obra de Bob Wilson, ao mesmo tempo em que há uma ordem e um limite de tempo, pois tudo o que acontece em cena é registrado de acordo com a duração do tempo, há, segundo Galizia (1986, p. xxiii) “o uso do acaso e da improvisação como meios para atingir resultados artísticos”, tendo como finalidade o estímulo das capacidades intuitivas do espectador.
Para a criação do Roteiro à la Bob Wilson nas aulas de “Encenações em Jogo”, os conteúdos sonoros e visuais foram criados a partir de uma estrutura vazia, na concepção de “linha visual” do encenador, na qual, dentro de uma estrutura cria-se um conteúdo que torna visível o Tempo e o Espaço.  Concebido assim, como um “libreto visual e sonoro” (SALGADO, 2010), o enredo “torna-se ações, entradas e gestos” partindo de uma “construção visual como um todo” (GALIZIA, 1986, p. 131).
“É excitante, pois tem uma vida que parecer vir diretamente da natureza, sem explicações (...). Muito pouco é predeterminado. Tem uma ordem um limite de tempo, claro, talvez um certo esboço, mas o que acontecer, acontece” (GALIZIA, 1986, p. xxvii)
Na abordagem metodológica de criação de roteiros como procedimento de aprendizagem teatral na disciplina da pós-graduação, Marcos Bulhões propõe a execução de três roteiros individuais, que culminou com a criação coletiva de um quarto roteiro, este apresentado na forma cênica num exercício de fisicalização do conceito, com saldo positivo para uma abordagem teórico-prática.
A criação de esboço, com desenhos-formas, entradas-saídas e ações-gestos, transcrito no papel, compondo roteiros à la Bob Wilson, era feito simultaneamente no decorrer das aulas, num exercício domiciliar e individual.
O primeiro roteiro foi concebido antes do contato antropofágico; o segundo, a partir de pontos-princípios possíveis de serem visualizados e “comidos” nas obras do “modelo”; o terceiro roteiro, desenvolvido a partir de uma imagem e, por fim, o quarto roteiro, que foi construído de forma colaborativa, cuja autoria foi compartilhada, através da junção de imagens coletadas dos diversos roteiros do grupo composto por oito participantes-aprendizes.
Teatro como “um arranjo arquitetônico no tempo e no espaço” (GALIZIA, 1986, p. 540). Esse foi o pressuposto para o esboço do Roteiro 2. Um espaço vazio cujas formas iam compondo visualmente e sonoramente criando um arranjo “arquitetônico no tempo e no espaço”, aludindo cenas e imagens de obras de Bob Wilson.
No esboço do roteiro 2, uma formalidade: a duração das cenas teriam exatamente 15 min. cada e as indicações para cada uma delas não passariam de entradas e ações. Na criação, entraram em jogo alguns pontos-princípios: a musicalidade na composição das ações; sobreposição de gestos e vozes; dança-canto; suspensão de movimentos; extensão e aceleração do tempo.
No esboço 3 de roteiro à la Bob Wilson, a instrução era partir de uma imagem provocadora. Descrevo o encontro com a imagem motivadora do meu esboço: - Ao sair do Teatro Laboratório da Escola de Comunicação e Artes observei uma estudante sentada na cadeira ladeada por duas amigas que lhe faziam tranças.
Aquela imagem grudou em mim e motivou o esboço do Roteiro três. Em minha percepção, reminiscências de estudos da narrativa no meio artesão, do mito de Ulisses e deusa Circe, a imagem da Circe tecelã.
No "Exercício do Sim”, a autoria compartilhada do Roteiro 4, contou com imagens poéticas de todos os participantes do grupo, buscando responder às necessidades de cada um com apresentação de ações sucessivas, sobrepostas e simultâneas: uma alusão ao poema Rondó dos Cavalinhos de Manuel Bandeira; à beleza e carnificina - frigorífico; criança na praia fazendo castelo de areia; homem fazendo a barba; mulher sendo trançada. Dessa junção de imagens colocamos no espaço vazio formas e corpos numa organização do espaço-tempo guiados pela canção Bombé. Ruhtwohl, ihr heiligen Gebeine, do audio Lambarena: Bach para Africa (1995).

Repetição.... Suspensão e Extensão da Ação.... Sobreposição.... Imagens que suscitam... Estímulos sonoros e visuais... Sensações...
Na função de direção do exercício, busquei compor o espaço e o tempo com as imagens de todos os participantes, numa construção visual do espaço, numa articulação LUZ-SOM-AÇÃO, onde a luz ensina a ver e a escutar e onde o ritmo é marcado com movimentos numerados conforme a duração do tempo sonoro, que se propaga na cena.
O resultado foram imagens provocadoras que podem vir a suscitar sensações, pois como afirma Bob Wilson (apud SALGADO, 2010):
“A verdadeira ação do meu teatro é a que passa no cérebro de meus espectadores (...). Eu lhes dou sinais impessoais, cada um inventa depois segundo sua imaginação. Deixa fluir em seu cérebro seus pensamentos que lhes são próprios. Não sugiro nada (...) para que saiam do adormecimento, para que sigam vendo em suas casas.”
Para ver e ouvir o exercício será necessário “tirar os óculos dramáticos”, utilizando aqui a expressão utilizada por Bulhões, para apreciação de obras que nos oferecem imagens, às vezes sem significação, e que dá ao espectador uma sensação de descontinuidade e que, dependendo dos óculos, pode vim a ser um exercício de sensibilidade.
Bibliografia:

ANDRADE, Oswald de. O manifesto antropófago. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação e crítica dos principais manifestos vanguardistas. 3ª ed.. Petrópolis: Vozes: Brasília:INL,1976.
GALIZIA, Luiz Roberto. Processos Criativos de Robert Wilson. São Paulo: Perspectiva, 1986.
SALGADO, Carmen Prado.  “Contrapontos de luz e som no teatro de Bob Wilson”. (palestra) In: DVD Ciclo Paralelo: Silêncios e Sussurros. Realização: Fundação Vera Sales Barcelos, em 11/09/2010.
SPOLIN, VIOLA. Improvisação para o Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1998.

domingo, 6 de maio de 2012


Adão Freire Monteiro

Encenações em Jogo: experimentos de criação e aprendizagem do teatro contemporâneo

Prof. Dr. Marcos Aurélio Bulhões Martins.

Protocolo Bob Wilson







Agora só um minuto tente escutar.

Bob Wilson.



           

            Encontro, jogo, exposição, novidade? Sim, no jeito de um olhar novo. Essas são impressões de um primeiro contato com a poética criativa de RobertWilson.

            O que parecia tão distante, a proximidade só existia na leitura, se fez presença e referência em aulas expositivas, táteis e comtemplativas. Nos foi apresentado um vocabulário onde aprendemos a decodificar mais uma forma de fazer teatro, ou melhor, fazer arte.

            Da sala de aula, ou melhor, do teatro de aula ao teatro espetáculo, e mais próximo ainda ele, Bob Wilson em A Última Gravação de Kraap, texto de Samuel Beckett, e leitores...nós.



(...) Não conhecia tamanho silêncio. A terra podia estar dsabitada. (...)

BECKETT, Samuel.



            Damaticidades, ou não, à parte, o teatro precisa de silêncio, silêncio, silêncio, para escutarmos o mundo, o homem, as coisas. Bob Wilson faz isso muito bem ao nos deixar vagar por algum tempo na sua estrutura, na sua sala ou escritório. Nos permite ver ao redor, bisbilhotar um pouco antes que o anfitrião chegue. E ele chega e é um arauto das boas  novas e velhas de Beckett.

            O teatro ao longuíssimo tempo seu, passou por eras de autores, atores, cenógrafos, iluminadores, críticos e gira o comboio de corda... Creio que chegamos na estação do espectador. Algumas obras, pós pós pós, deixam até mesmo pro espectador não mais contemplá-la, compô-la, mas criá-la. Em teatros de espaços vazios, em danças epiléticas, músicas de silêncios, quadros em branco. E o espectador não entende a obra, mas seu papel, que foi-lhe espontaneamente imposto.

            Nós, espectadores, precisamos de armas para esta batalha. Na cadeira da pós...graduação, alguns poucos nós, tatiamos a cartilha Bob Wilson e conseguimos adentrar neste mundo pós...dramático. coloco pós reticências dramático, de caso pensado, pois essa discussão dá pano pra manga, e este pano estamos tecendo juntos.

            Ler-jogar-ver-encenar Bob Wilson foi uma experiêcia artístico-pedagógica incrível. Uma experiência que nos tira do silêncio incomunicável e nos coloca numa comunicação viva. Reflito agora sobre o silêncio das obras, dos corpos, esse vazio que nos cabe.





(...) Kraap fica imóvel, olhos fitos no vazio. A fita continua a desenrolar-se em silêncio.

BECKETT, Samuel.







COMEÇO, MEIO E FIM?



            Roteiro Livre



Criamos um roteiro livre, o qual  gostaríamos de vê-lo posto em cena. Meu roteiro partiu do conto: O Homem de Cabeça de Papelão, de João do Rio.

Selecionamos três imagens:





1



2







3



Acrescentamos descrições da cena, luz, sonoplastia...compartilhamos os roteiros em turma. Esse processo de elaboração foi bem interessante e didático para nós, professores, propormos cenas, criar e analizar essas cenas, com imagens trazidas pelos alunos. À partir do roteiro livre, passamos a adentrar o universo Bob Wilson...



Roteiro a partir de Bob Wilson



            Com as leituras que já estávamos fazendo sobre Robert Wilson, teatro performativo, teatro pós-dramático, foi-nos proposto uma criação de um roteiro a partir de imagens, descrição de cena, motivo de criação, do contexto Bobwilsiano...



           


            Trabalhei com a proposta de tempo colocada nas criações do diretor. Parti da imagem de uma cena do vídeo: Shakespeares Sonette - Sonett 66.  Os atores sentados nas cadeiras me remeteram ao tempo que “gastamos” sentados esperando, ou diante da tv. O tempo da tv que nos é imposto e nos condiciona...



                       

            Quem lança informações para quem? De quem é o tempo? Humanos, máquinas...quem está fora do ar? Essas foram minhas indagações para uma uma cena.








            Em uma outra etapa, prática em aula, jogamos com procedimentos de Bob Wilson e trabalhamos com cenas elaboras a partir do roteiro. Interagimos com cenas e roteiros de outros e propusemos cenas, que foram expostas já com figurinos, luz , som e ação. Ver vídeo. Na junção com outros roteiros, perde-se elementos e ganha-se informações, por exemplo nossa cadeira e tv que metaforizavam o tempo, desaparece enquanto praticáveis e aprofundamos em imagens que simbolizassem sacrifício, doação e tempo.

Adão Freire Monteiro